Prosa

Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Prosa é um gênero de texto escrito em parágrafos. O termo deriva do latim prosa, que significa discurso direto, livre, em linha reta.[1] Trata-se da expressão do "não eu"[2] (ou do objeto[3]), por meio de metáforas univalentes.[4] Em um texto em prosa, as metáforas são exploradas com parcimônia, visando criar uma imagem objetiva e concreta da realidade, o que o diferencia do texto poético.[4] Porém, a linguagem da prosa não é pura denotação.[4] Quando a obra chega ao seu epílogo, e termina a narrativa, a conotação se manifesta fortemente.[3] Portanto, a prosa faz uso da linguagem denotativa conotativa, ao contrário da linguagem poética, que é predominantemente conotativa.[3]

"Prosa" pode designar uma forma (um texto escrito sem divisões rítmicas intencionais -- alheias à sintaxe, e sem grandes preocupações com ritmo, métrica, rimas, aliterações e outros elementos sonoros), e pode designar também um tipo de conteúdo (um texto cuja função linguística predominante não é a poética, como por exemplo, um livro técnico, um romance, uma lei, etc...). Na acepção relativa à forma, "prosa" contrapõe-se a "verso"; na acepção relativa ao conteúdo, "prosa" contrapõe-se a "poesia".

Aristóteles já observava, em sua "Poética", que nem todo texto escrito em verso é "poesia", pois na época era comum se usar os versos até em textos de natureza científica ou filosófica, que nada tinham a ver com poesia. Da mesma forma, nem tudo que é escrito em forma de prosa tem conteúdo de prosa.

Classificação

Dom Casmurro é um texto em prosa do tipo romance.

A prosa divide-se em dois tipos básicos: a narrativa e a demonstrativa. A prosa narrativa, compreende a histórica e de ficção, enquanto a prosa demonstrativa reúne a oratória e a prosa didática (tratados, ensaios, diálogos e cartas).[1]

A prosa também pode ser classificada pela função, dividindo-se em narrativa (ou de ficção); argumentativa (tratados); dramática (texto teatral); informativa (livros didáticos, manuais, enciclopédias, jornais e reportagens); e contemplativa (ensaios).[1] A prosa considerada literária compreende o conto, a novela, o romance, a crônica, o apólogo e o texto teatral. As demais formas não são estudadas no campo da Literatura,[3] Porém, a essência da prosa literária está nas prosas de ficção: o conto, a novela e o romance.[4][3]

O conto é um tipo de história mais curta, construído geralmente com um único conflito, com poucas personagens. A novela também é um tipo de história curta, que pode apresentar um ou mais conflitos (normalmente de tamanho intermediário entre o conto e o romance, com a particularidade de a novela ter um andamento mais episódico, dando a impressão de capítulos separados. Já o romance é um tipo de história onde há um conflito principal, prolongado com conflitos secundários, vindos dos painéis de época, das divagações filosóficas, da observação dos costumes e hábitos.

O tempo é um dos aspectos mais importantes da prosa de ficção.[5] O tempo cronológico é específico do conto e da novela, embora possa ocorrer no romance linear. Já o tempo metafísico é característico do romance, e em especial, do romance introspectivo.[6]

Prosa poética

Ver artigo principal: Prosa poética

O linguista Roman Jakobson define "poesia" a partir das funções da linguagem: "poesia" é o texto em que a função poética predomina sobre as demais. Assim, um texto escrito em forma de prosa pode ser considerado de "poesia", se sua função principal, sua finalidade, for poética. A tal texto pode-se dar o nome de prosa poética ou poesia em prosa. Pois é "prosa" em sua forma; mas "poesia" em sua função, em sua essência, nos sentimentos que transmite.

Historicamente, o marco de início da prosa poética é geralmente associado aos simbolistas franceses, entre os quais Baudelaire e Mallarmé; no Brasil esse início também está associado aos simbolistas, principalmente ao Poeta Negro: o grande Cruz e Sousa, que tem cinco obras em prosa poética: Tropos e Fantasias (1893); Missal (1893); Evocações (1898); Outras Evocações (obra póstuma) e Dispersos (obra póstuma).

A partir do século XX o gênero foi adotado por muitos poetas e poetisas, de estilos e inclinações muito diversos. A essas obras está reservado esse novo espaço, que já de saída inclui algumas obras de poetas como Cláudio Willer e José Geraldo Neres que já faziam parte de nosso acervo. Hoje apresentamos um novo poeta adepto desse gênero: Jorge Amaral.

História

Enquanto a poesia surgiu nos primórdios da atividade literária, a prosa desenvolve-se na Idade Média. A prosificação das canções de gesta deu origem às novelas. O romance surge no século XVIII e o conto desenvolve-se no fim da Idade Média e início do Renascimento. No entanto, há registos isolados anteriores, como o embrião de novela Ciropédia, de Xenofonte[7] e o conto As Mil e Uma Noites.[3]

No Brasil

O romancista brasileiro José de Alencar

A prosa barroca no Brasil surge no século XVII, com a oratória dos jesuítas, tendo como nome central o Padre Antônio Vieira.[8] No século XVIII, surgem os primeiros grêmios literários e eruditos, na Bahia e no Rio de Janeiro, denominados "academias".[9] Surgem também os atos acadêmicos, sessões de várias horas em homenagem a pessoas ou a datas religiosas, compreendendo sermões, poemas e óperas.[10] No século XIX, textos em prosa têm grande influência na história do país. Destacam-se os panfletos de Frei Caneca, condenado à morte pela participação na Confederação do Equador, e, principalmente, os ensaios de Hipólito da Costa em O Correio Braziliense contribuíram para a independência e as crônicas de Evaristo da Veiga na Aurora influenciaram a abdicação de Dom Pedro I.[11] A prosa do Romantismo inclui nomes como o de José de Alencar (O Guarani, romance de 1857), Álvares de Azevedo (Noite na Taverna, conto de 1855), Manuel Antônio de Almeida (Memórias de um Sargento de Milícias, de 1854) e Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha, romance de 1844).

Na África

O romancista angolano Castro Soromenho

Em Cabo Verde, a prosa literária antecedeu a poesia,[12] e em Moçambique, o conto tem sido o gênero literário mais importante no período pós-independência,[13] tendo Orlando Mendes como pioneiro no romance.[14] Em Angola, a primeira novela surge com Alfredo Troni em 1882 (Ngá Mutúri), mas o primeiro romance tipicamente angolano é O Segredo da Morta (1929), de Assis Júnior.[15] Destacam-se posteriormente Terra Morta (1949), de Castro Soromenho,[16] e mais recentemente os autores Luandindo Vieira,[17] Boaventura Cardoso,[18] Manuel Rui[19] e Ruy Duarte.[20] Em Guiné-Bissau, destaca-se a prosa de Fausto Duarte,[21] Abdulai Silla,[22] Odete Semedo, Filinto de Barros.[23]

Referências

  1. a b c Moisés 2002, p. 371.
  2. Moisés 1982, p. 270.
  3. a b c d e f Moisés 2002, p. 372.
  4. a b c d Moisés 1996, p. 84.
  5. Moisés 1996, p. 101.
  6. Moisés 1996, p. 102.
  7. Moisés 2002, p. 320.
  8. Bosi 2006, p. 43.
  9. Bosi 2006, p. 48.
  10. Bosi 2006, p. 50-51.
  11. Bosi 2006, p. 85.
  12. Veiga 1998, p. 118.
  13. Lopes 2004, p. 307.
  14. Medina 1996, p. 123.
  15. Santilli 2003, p. 293.
  16. Santilli 2003, p. 296.
  17. Medina 1996, p. 134-135.
  18. Macêdo 2007, p. 107.
  19. Macêdo 2007, p. 119.
  20. Macêdo 2007, p. 135.
  21. Augel 2007, p. 111.
  22. Augel 2007, p. 113-114.
  23. Augel 2007, p. 293.

Bibliografia

  • Augel, Moema Parente (2007). O desafio do escombro. nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Garamond. 422 páginas. ISBN 9788576171348. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Abdala Júnior, Benjamin (2007). Literatura, história e política. literaturas de língua portuguesa no século XX 2 ed. [S.l.]: Atelie Editorial. 285 páginas. ISBN 9788574803418. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Bosi, Alfredo (2006). História concisa da literatura brasileira 43 ed. São Paulo: Cultrix. 528 páginas. ISBN 9788531601897. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Castello, José Aderaldo (2004). A Literatura Brasileira. origens e unidade (1500-1960). 2 1 (1ª reimp) ed. São Paulo: EDUSP. 583 páginas. ISBN 9788531405051. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Lopes, José de Sousa Miguel (2004). Cultura acústica e letramento em Moçambique. em busca de fundamentos antropológicos para uma educação intercultural. São Paulo: EDUC. 672 páginas. ISBN 9788528302851. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Lopes, Nei (2004). Enciclopédia brasileira da diáspora africana 2 ed. São Paulo: Selo Negro. 715 páginas. ISBN 9788587478214. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Macêdo, Tânia; Chaves, Rita de Cássia Natal; Santilli, Maria Aparecida; Flory, Suely Fadul Villibor (2007). Literaturas de língua portuguesa. marcos e marcas. Angola. São Paulo: Arte & Ciência. 171 páginas. ISBN 9788574733395. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Medina, Cremilda (1996). Povo e Personagem. Canoas: Editora da ULBRA. 245 páginas. ISBN 9788585692261. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Moisés, Massaud (1996). A Análise Literária 14 ed. São Paulo: Cultrix. 270 páginas. ISBN 9788531600111. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Moisés, Massaud (2002). Dicionário de Termos Literários 11 ed. São Paulo: Cultrix. 520 páginas. ISBN 9788531601309. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Moisés, Massaud (1982). Literatura. mundo e forma. São Paulo: Cultrix. 368 páginas. ISBN 9788531602337. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Paladino, Claudia Amorim Mariana (2012). Cultura e Literatura Africana e Indígena. Curitiba: IESDE Brasil. 180 páginas. ISBN 9788538709657. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Santilli, Maria Aparecida (2003). Paralelas e tangentes. entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo: Arte & Ciência. 339 páginas. ISBN 9788574730998. Consultado em 12 de janeiro de 2013. 
  • Veiga, Manuel (1998). Cabo Verde. Insularidade e literatura. [S.l.]: Karthala. 253 páginas. ISBN 9782865378272. Consultado em 12 de janeiro de 2013.